Millydielle's Blog

4 de março de 2012

A praga que destroi relacionamentos

Filed under: Stella Florence — by milly_JF @ 14:15

Terminou tudo entre vocês – tudo que era bom. E você olha para o céu pesado de chuva e pensa: por que?

O primeiro pingo da tempestade avassaladora, a gota podre que abriu caminho a todas as outras gotas igualmente podres, o primeiro (e último) nó de água turva que esganou seu romance, se concentra numa só ideia: mudar o outro. Você quis mudá-lo. Ou ele quis te mudar. Ou ambos. Não existe fim de relacionamento que não conte, em seus despojos, com essa praga.

Por que tentamos fazer do outro uma espécie de Adão, criado a nossa imagem e semelhança? Qual a utilidade de censurá-lo, tolhê-lo, de tentar encaixá-lo no nosso molde estreito? (E não vamos confundir mudar-o-outro-à-fórceps com aprender-com-o-outro-e-se-modificar-por-desejo-próprio, capisce?)

Me parece que, quando se trata de relacionamentos românticos (essa selva na qual também me embrenho), ainda nem atravessarmos o nível 1: o medo do diferente. E nada sobrevive num espaço em que a única forma válida de ser é a da nossa cartilha. Mas se você perder o medo do que é diferente e se ele também perder o medo e se vocês conseguirem ver beleza nisso e não tentarem mudar um ao outro, talvez os dias possam ser genuinamente bons e até mesmo, ouso dizer, felizes.

Certa vez, uma cena prosaica me chamou a atenção. Um ex-namorado (na época namorado, naturalmente) comprou uma jaca para servir na sobremesa do almoço. Eu, que nunca comera tal fruta, me propus a experimentar. Ele cortou um bocado e deu na minha mão. Eu olhei para aquele alienígena estendido sobre a mesa (você já viu uma jaca aberta? É algo como o oitavo passageiro) e meio insegura provei um naco. Pasme: é bom! Sim, jaca é feia e gosmenta como o avesso do inferno, mas o sabor é suave e agradável. Mesmo assim, cheguei à conclusão de que não provaria um segundo pedaço: a consistência é por demais nojenta para que eu me afeiçoasse à fruta.

E meu então namorado ficou ofendido? Insistiu em que eu comesse mais? Quis mudar minha opinião? Não. Ele fez que sim com a cabeça e continuou a comer a jaca de que tanto gosta e a servir os outros comensais. Eu respirei aliviada por não ter de enfrentar uma batalha inútil quanto à questão mais inútil ainda de eu não dar uma segunda chance à jaca.

Você já passou pela desgastante experiência de ter de fincar os cascos no chão por causa de algo insignificante (ou mesmo fundamental)? Eu já levei sermões porque não vivo sem leite (sou um bezerro, sim, me deixe em paz!), porque gosto de reclusão (minha profissão e minha sanidade exigem), porque ando na velocidade 5.0 na esteira (segundo alguns, muito lenta), porque minha filha usa a mesma saia dias seguidos (ela adora essa saia: qual o problema?), porque me recuso a aceitar uma terceira pessoa na cama, etc, etc, etc. Quanto desperdício de energia…

O fato é que nós nunca sabemos qual o destino de um romance, no entanto os que têm mais possibilidade de vingar pelos anos afora são aqueles em que há aceitação. Aceita-se o gosto por jacas, o não gosto por jacas, aceitam-se crenças diferentes, espaços físicos, profissões, desejos diferentes (alguns podem ser compartilhados, outros, não). Apenas a partir dessa conquista, ambos podem se encontrar e se refestelar no que é fundamental: no amor. Amor cujo sinônimo é (também) aceitação.

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