Millydielle's Blog

4 de março de 2012

Lindo. Loiro.

Filed under: Stella Florence — by milly_JF @ 14:08

Costumava olhar constantemente o calendário na parede do quarto – um livro recheado de fotos em preto e branco com semimoldura em espiral metálica – e, apesar de estarmos em maio, agosto era o mês em destaque nele, o mês que escolhi dentre os outros doze. Claro, havia um motivo: a foto.

A foto de agosto é um nu: um belíssimo close da abertura triangular formada pelas coxas, abdômen e braços de um homem curvado sobre si mesmo. Sem cabeça, pés ou mãos: só a abertura e alguns fios longos e loiros compunham a miragem na parede deserta.

Todas as manhãs, ao acordar, eu esboçava um sorriso quase romântico para a foto na qual o corpo continuava curvado e, depois do café preto sem açúcar, ia para o trabalho, não sem antes passar uns dois minutos olhando-a e imaginando como seria aquele homem inteiro: a pele, os pêlos, o cabelo, a voz, o olhar.

Na manhã de um abafado domingo, tentei me levantar e não consegui. Deitada de bruços, o corpo todo formigando, julgando-me suspensa por cordas invisíveis, senti sua mão na minha cabeça. Soube que era a mão dele por causa dos cabelos que atravessaram meu estreito campo de visão: mechas compostas por fios finos como nunca vi outros, loiros, daquele tom cinza-claro que não se compra, não se fabrica, não se adquire: com o qual se nasce. Quando reconheci seus cabelos, relaxei: nada de mau poderia me acontecer, não naquela hora. Ele acariciou meu couro cabeludo por um longo tempo, com tamanho carinho que o torpor foi inevitável: adormeci novamente. Ao despertar, depois de sonhos tão suaves quanto seu toque, encontrei-o de volta à parede. Nu.

“Você vai sair daí de novo”— pensei sorrindo, e desci leve as escadas do sobrado em que moro. Algumas horas depois, voltei para casa, tomei um suco gelado e depois um banho. Sentada na cama, cabeça para baixo, toalha em punho secando os cabelos, topei com um. Fio. De cabelo. Loiro. Comprido. Fino. No chão.

Um arrepio percorreu toda minha coluna indo se alojar na nuca: seria, aquele fio, resíduo da sua visita matutina ou não? Em princípio receosa, fui levantando a cabeça devagar enquanto remetia os olhos em direção àquela parede; depois temerária, encarei o calendário: acetato em branco, ele não estava mais lá. Antes de poder pensar em qualquer possível ação – como procurá-lo pela casa inteira, sair desesperada até a mais próxima livraria e comprar um outro calendário ou desmaiar, por que não? – senti, por trás, suas mãos descendo pelo meu pescoço. Apenas soube, sem receios que, sim, era ele.

Não pude me mexer, não pude sequer respirar. Seu toque diretamente na pele era macio como papel vegetal. Desatou minha e de joelhos na cama, ainda atrás de mim, escorregou as coxas nuas até que eu pudesse vê-las e senti-las nas minhas próprias coxas; seu corpo todo, surpreendentemente quente, se aderiu às minhas costas. Virei-me num ímpeto, inspirando uma golfada brutal de ar para sobreviver: eu não estava dormindo, nem sonhando, era real. Nos vimos frente a frente.

Lindo.

Loiro.

Lindo!

Não dissemos nada, então. Mudo ele não era, gemer ele gemia.

Como pude adormecer depois, não sei. Numa situação dessas, suponho, eu deveria me manter acordada, tirar fotos, fazer perguntas, pegar a câmera de vídeo, chamar um advogado, um padre e uma equipe de reportagem da TV. Entretanto, não fiz nada disso, ao contrário: dormi, já acompanhada do medo dele não voltar.

No entanto, ele voltou. Em intervalos cada vez maiores, mas voltou. Esses mesmos intervalos, em vez de me concederem liberdade para sair, me divertir e até conhecer outra pessoa – ou melhor, conhecer uma pessoa de verdade – transformaram – e transtornaram – minha rotina. Todas as preocupações do meu dia se voltavam para a possibilidade da sua visita. Mais ainda: quando ele não vinha, passei a pensar em todas as outras mulheres e homens que haviam comprado aquele calendário, que o meu príncipe nórdico poderia se esparramar em vários outros braços, que outras casas talvez conseguissem maior permanência e atenção dele do que a minha e o ciúme fez-se inevitável.

Mas se ao menos ele falasse! Ou se eu não ficasse tão absorvida pela euforia de tê-lo, tão tomada pela terrificante possibilidade de uma pergunta minha desmanchar o encanto e fazê-lo desaparecer para sempre!…

Com exceção ao trabalho, eu não saía mais de casa nem para fazer compras no supermercado e evitava a todo custo que alguém me visitasse afinal, ele poderia aparecer! Passava os dias e as noites vestida para um encontro romântico, perfumada, penteada, depilada… e, quase sempre, sozinha.

Pensei até em invocar um outro nu do calendário só para me vingar das suas ausências, mas quê! Nenhum me interessava ou tampouco parecia ter a qualidade de ir e vir como ele.

Até que um dia, depois de quase dois anos de contínua angústia e êxtases momentâneos, quase dois anos sem enxergar muito bem seus olhos em meio aos longos cabelos loiros ou ouvir sua voz articular palavra inteligível, perdi o medo: não fazia mais diferença.

Quem quer alguém que não compartilha um cinema, um teatro, um restaurante, uma festa? De quem não se pode sequer comentar a existência, muito menos apresentar aos amigos? Que não tem dia nem horário para chegar e cujo único hábito é ir embora? Quem quer alguém que só vem quando quer, que só faz o que quer, que só dá o que quer dar, que só recebe o que quer receber?
Quando ele retornou saciado, pela última vez, para o calendário – que agora sei, sempre foi sua prisão – levei-o até uma casa de molduras e, pagando o preço da urgência, consegui que fosse imediatamente emoldurado em vidro sob os meus olhos bem atentos.

Lindo. Loiro. Lindo. Na parede. Para onde foi talhado.

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