Millydielle's Blog

4 de março de 2012

Muito mais que um corpo perfeito

Filed under: Stella Florence — by milly_JF @ 14:10

Os meus braços estão moles. Puxei a gola do pijama para procurar uma pulga e vi uma espécie de varal de pele: meus ossos, minhas peles. Ricardo está na Veja, numa propaganda de óculos, lindo. Não tem nada a ver com a pelanca do braço, isso.

Ontem ainda ele esteve aqui em casa e eu comprei a revista para ver o anúncio em que ele apareceria, segundo suas próprias palavras, “deslumbrante”. Ele jogou charme – sua única arma de trabalho e sobrevivência – porém, morrendo de medo que eu o atacasse, se retraiu feito lesma quando meus dedos de sal subiram das mãos para o seu rosto: lugar mais íntimo. Provocar, ele provoca; pagar para ver, não paga. Modelos não devem se deixar tocar por dedos de sal: pode ser muito perigoso.

Eu não queria admitir isso porque não sei o que pôr no lugar, no entanto a verdade da qual não posso mais fugir é que ele é um bocó. Um bocó de mola, como diria minha bisavó Leonor. O que você faz quando não dá mais para negar que o cara por quem você está apaixonada desde a adolescência é uma anta com todos os acessórios? Enquanto havia a mais remota possibilidade de engano, eu continuei, firme, mas agora…

Amar um bocó por muito tempo é um trabalho para os muito imbecis e muito criativos. O problema é esse: o estágio da imbecilidade acabou há uns três anos; a criatividade ficou sozinha com tamanho encargo e, desde então, trabalhando por duas, não agüentou o tranco e acabou por definhar sem que eu percebesse.

E agora ele está num anúncio de armação de óculos na Veja, lindo, é verdade. Mas sabe aquela beleza morta de songo mongo? Eu o observo maquiado, colorido, estampado na revista e não consigo pensar em outra coisa que não seja essa disposição simétrica de traços em seu rosto substituindo qualquer outro aspecto que pudesse compor uma personalidade interessante.

Percebi, há algum tempo, o que realmente fez com que eu permanecesse alheia à dura realidade dele ser um beócio absoluto: a minha própria aparência. Era importante para mim – então uma adolescente gordota e desajeitada – que um rapaz tão bonito e cobiçado como ele, vira e mexe, estivesse comigo, mãos dadas, carinhos no rosto, mesmo que como apenas-bons-amigos.

Ficamos juntos uma vez, há uns quatro anos. Se foi bom? Isso é pergunta que se faça? Sei lá, acho que foi para ele; eu não consegui pensar em muita coisa além de: “E não é que isto está acontecendo mesmo?”.

Nem poderia ser diferente: quando a gente espera muito tempo para ficar com alguém, parece que o desejo choca como um ovo esquecido na geladeira e, apesar de além da casca oca não haver mais nada suculento e substancioso a saborear, a gente ainda aceita o tal ovo podre, só para não dar o braço a torcer. E mais: ainda finge que está bom. Pareceria ridículo esperar tanto por alguma coisa que não valesse mais do que um ovo passado, mas é isso o que ele é, admito: um ovo choco, um bocó de mola.

Lembro-me, naquela noite, dele se levantando e desfilando para mim, o que não era verdade: Ricardo desfilava para e por ele. Parecia dizer em seu andar empertigado: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, que está aqui, na sua frente, te dando a honra de compartilhar o mesmo ar”. Mensagem subliminar: “Preciso que você diga, Thaís, com total entrega, que eu sou o máximo, porque se você não disser posso me desestruturar e pular no rio Tietê”. E eu disse todo aquele script romântico centenas de milhares de vezes, até outro dia. Hoje estou exausta. Oito anos! Oito primaveras, verões, outonos e invernos e esse cara não decide o que vai fazer comigo! Largar não larga, mas pegar também não pega e assim ficamos nesse limo chamado um-pouco-além-de-amizade-mas-não-exatamente-namorados”.

Se ele já disse que gostava de mim com todas as letras? Claro! Incontáveis vezes nesses anos todos. Eu não mantive essa chama acesa sem nenhum incentivo – o que, sei bem, é comum por aí.

E afinal, se ele realmente fosse uma pessoa esperta, inteligente, sensível, por que nunca quis ficar comigo, ou melhor, tentar ficar, que é o que todo mundo normal faz quando gosta de alguém? Te digo: porque ele é um bocó de mola. Porque é incapaz de permanecer especial depois de ter convivido comigo; porque Ricardo precisa e sempre precisou que eu, exatamente eu, que nem sou bonita como as Barbies com quem ele costuma badalar à caça de algum colunista social, que muito menos tenho um corpo compatível ao de suas coleguinhas, afirme que ele tem sempre um lugar para voltar, uma mulher que o quer, um porto seguro, e ele não conquistaria isso sem a ajuda da minha larga imaginação e baixa auto estima gordurosa.

Não que Ricardo me despreze. Já que minha criatividade em justificar seu pouco encanto acabou, para que dar uma de vítima? Ele não me despreza: ele me subestima, me julga pelas minhas aparências flácidas e eu o superestimei, o julguei pelos seus rijos músculos.

Queria saber o que eu estou fazendo aqui ainda olhando para esse anúncio de armação de óculos. Eu nem uso óculos! Não preciso disso para parecer inteligente. Nem preciso emagrecer, enrijecer a musculatura, fazer limpeza de pele toda semana, injeção de botulismo, fios de ouro, lipoaspiração, sculpter, forno de bier, massagem, para que as pessoas gostem de mim.

É, tenho um varal de pele em cada braço, tenho celulites – e não são poucas –, tenho estrias e a parte interna das minhas coxas é tão mole quanto um colchão d’água – com pouca água. E daí?

Eu valho bem mais do que uma silhueta perfeita: tenho o que falar e sou um ótimo papo; aprendi a usar meu corpo como ele é com graciosidade; meus olhos muito verdes sorriem o tempo todo; minha voz é rouca e ligeiramente grave, o que confere um grande charme a ela; minhas mãos são expressivas e meus dedos longos, delicado leque oriental; meu cabelo é farto, cacheado e bem cuidado. Uso bem tudo o que tenho e isso vale muito mais do que um corpo perfeito, te garanto.

Ricardo… ele e sua estética irretocável, não merecem mais admiração do que o pedaço de rabanete murcho que caiu ontem da minha gaveta de legumes.

Por que demorei tanto para perceber isso?

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