Millydielle's Blog

4 de março de 2012

“Tesouro” ou “Ele me acha tão incrível que está saindo com outra”

Filed under: Stella Florence — by milly_JF @ 13:50

Encontro fios de cabelo comprido no banheiro dele. Eu tenho cabelos curtos, como qualquer imbecil pode ver. Brinco que a faxineira dele anda desleixada (leia-se “eu percebi sua falta de cuidado em esconder uma possível trepada fortuita, baby”) e esqueço o assunto. Escolho esquecer porque realmente acredito que pode ter sido uma noite desimportante, fruto de uma pequena crise que tivemos ou, num cenário mais otimista, os fios poderiam pertencer a uma visita, a uma irmã, a uma amiga (alguns homens têm amigas com quem nunca treparam – como os meus amigos, por exemplo).

No entanto ontem ele me leva para jantar, beija minha mão e diz que gosta muito de mim (sinto um frio na espinha: ele nunca foi romântico), diz que eu sou incrível (lá vem algo ruim), que ele me adora (certamente vem algo muito ruim), que eu faço bem pra ele (me preparo para o baque), que me quer na vida dele pra sempre seja de que modo for (seja de que modo for?) e que, sim, aqueles fios de cabelo eram de outra mulher com quem ele tem saído (ah, chegamos ao ponto).

Então enquanto eu me afogava de desejo sozinha em casa, havia alguém com ele. Certo. Então ele me acha tão incrível que está saindo com outra. Perfeito. Se me achar um pouco mais incrível, a seguir ele puxará minha saia para limpar o cocô do cachorro sarnento no qual ele inadvertidamente pisou ali na esquina. E se me achar ainda mais incrível, não restará outra coisa a fazer, de acordo com esse raciocínio, a não ser me dar um tiro à queima roupa.

Voltemos ao jantar. Fui civilizada, como sempre. Há algo mais inútil do que chiliques ou lágrimas? Eu não grito, eu não xingo, eu não brigo, eu não dou escândalos, eu não choro na frente de ninguém, eu não incorporo a fúria de mulher traída, eu apenas aceito as coisas como são e desapareço. E essa aceitação doída, porém resignada, essa imediata ação de sumir tem em mim um efeito de alvejante, de desinfetante, de ácido limpador: depois que passa a tristeza imensa, imensa, não resta mais nada. Algo ali se quebra e é irrecuperável.

Eu me recuso a manter mágoa ou dor ou carinho ou compaixão ou amizade com alguém que não percebeu que tinha um tesouro nas mãos. Um tesouro não se auto-proclama: ele é. Aproveita o tesouro quem tem inteligência e sensibilidade: quem não tem, volta, cedo ou tarde, a sua própria miséria.

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